domingo, 25 de maio de 2014

CARTA ABERTA AOS MAÇONS BRASILEIROS MAÇONARIA, LIBERDADE E RETROCESSO

Prof. Dr. Carlos A. P. Campani M.’.I.’.

Não pretendia escrever um texto que cobrisse temas que envolvessem política e Maçonaria. No entanto, os fatos recentes me obrigaram a escrever algo, sob pena de, calando-me, parecer que concordo com tais fatos. Recentemente houve ampla repercussão de carta aberta escrita por alto dignitário de Potência maçônica, cuja autoria, como muito do lixo que circula pelo Facebook atribuindo tal e qual frase a tal e qual pessoa, sem que o compartilhador tenha o mínimo de trabalho de verificar a fonte e a veracidade da informação, até o momento carece de confirmação. Assim, não farei atribuição deste texto ao suposto autor, preferindo analisar sua repercussão. Mesmo que eu não tenha conseguido confirmar a autoria do texto, o compartilhamento dele por alguns maçons, prova que no seio da Maçonaria há acolhida a tais pleitos, que na sequência irei mencionar e criticar.


Outro fato que me motivou a escrita deste texto foi a Marcha da Família 2, que tentou reeditar a famigerada Marcha ocorrida em 1964 e que foi um dos fatores para um longo período de trevas na história de nosso país. Neste caso, repercutiu de forma muito forte na imprensa, e negativa para a Maçonaria, a presença de meia dúzia de pessoas fardando o avental maçônico, misturados a skinheads neonazistas, loucos, velhos militares saudosos das práticas antidemocráticas do passado e outras figuras patéticas que desejam um retrocesso político e o fim da democracia em nosso país.


Em primeiro lugar, devo deixar claro que as opiniões e ideias que serão expressas neste texto são de minha autoria, não refletindo quaisquer ideias de grupo ou facção, Loja ou Potência maçônica. O argumento que será apresentado baseia-se em uma análise de conjuntura que, sendo longa e detalhada, infelizmente resulta que o argumento não pode ser completamente explicado neste texto que tentei manter curto e conciso. O texto é uma pequena contribuição à discussão associada à uma Organização aberta e adogmática, que deve e merece ser representada por todas as concepções existentes sem preconceito.


Sem tentar entrar muito demasiadamente em definições formais, a política caracteriza-se por dois aspectos: a busca do convívio harmonioso entre os homens, como definido pela filosofia clássica; a disputa pelo poder, como definido por Maquiavel. Entre estas duas definições, parece-me que a primeira atende mais propriamente ao que a Maçonaria deveria discutir e realizar. A Maçonaria busca as “verdades absolutas”. Ao proclamar a busca pela Verdade, a Maçonaria quer dizer a busca pela Verdade Ideal, cuja realização é espiritual. Porém, o campo da ética e da política trata da verdade contingente, cuja verificação passa por processo de significação, caracterizando-se por ser relativo e local. Cabe-me alertar que, tratando-se tal definição de “verdade” de forma doutrinária, facilmente rompem-se os limites que separam racionalidade de dogma.


Necessário é fazer-se uma breve discussão sobre a posição política que a Maçonaria segue e aos maçons impõe-se, à luz das landmarks e leis maçônicas. Neste caso, devemos entender que duas linhas claramente diferentes aparecem: a anglo-saxonica; e a francesa. Na primeira, são proibidos pronunciamentos e discussões de caráter político de qualquer natureza no seio da Ordem, como se pode apreender no que diz a Constituição de Anderson: “Portanto, quaisquer pendências ou querelas acerca de religião, cidadania ou política não devem ser conduzidas para dentro das portas das Lojas”; o que é interpretado pela Maçonaria anglo-saxonica como proibição total de discusões sobre política, mesmo que desprovidas de caráter partidário. Já a tradição francesa, que vicejou na Maçonaria latino-americana, proibe apenas o proselitismo partidário, permitindo ao maçom a luta contra o absolutismo religioso e o extremismo político, assim como a defesa dos interesses da comunidade.


Mas, visto nesta perspectiva, fatos como os citados no início deste texto, opiniões amplamente compartilhadas por maçons de todo o Brasil, claramente entram no cavernoso e incerto campo da doutrina partidária e do desconforto com este ou aquele grupo político que esteja no poder. Mais que isso, ditos e feitos, da forma como foram e, mais importante que isso, às vésperas de aniversário de golpe militar, só pode ser entendido como uma afronta direta aos mais básicos princípios da Maçonaria francesa, quais sejam, liberdade e justiça. O momento escolhido para veicular certas afirmações foi uma infeliz escolha, que só pode associar nossa Ordem com eventos de infeliz lembrança. Cabe a todo maçom, imbuido dos verdadeiros ideais de liberdade e justiça refutar e rechaçar de forma inquestionável posições que defendem retrocessos políticos e que enamoram-se por ideologias autoritárias e reacionárias.


Na história da Maçonaria aparece de forma clara a luta pelo avanço social e político: a defesa do ensino público e laico, luta em que maçons e socialistas estavam juntos;  a luta pela democracia, a liberdade e contra todas as oligarquias; etc. Uma das mais emblemáticas destas lutas, a luta contra a tirania monárquica e pela república, “res pública”, a “coisa de todos”, já demonstrava em que lado a Maçonaria estava. Destaca-se, neste contexto histórico, o grande maçom, socialista e heroi de dois mundos, Giuseppe Garibaldi, cuja luta revolucionária sempre esteve ao lado da liberdade e da libertaçao dos povos de todas as tiranias, sendo um exemplo pessoal a ser lembrado por todos os maçons.


Importante lembrar que a Maçonaria, por ser adogmática e aberta, assumiu diferentes posturas políticas e ideológicas ao longo de sua rica história, envolvendo-se nos mais variados eventos históricos. A despeito destas variadas posturas, a Maçonaria sempre teve como norteador uma concepção avançada de estrutura social, libertária em muitos sentidos, e contrária a tiranias de todos os tipos.


No entanto, numa espécie de nova interpretação míope da conjuntura, alguns maçons passam a defender uma nova visão de tirania, na qual aparece como definidora do que é “liberdade” e “tirania”, não argumentos e bases filosóficas e racionais que devem nortear esta definição em nossa Ordem, mas meias verdades, mentiras completas, fofocas infundadas, cuja origem encontra-se nas piores oligarquias deste país e cujo meio de transmissão é a grande mídia que, abandonando as mais básicas regras éticas do jornalismo, usa o espaço público concedido para a calúnia, difamação e defesa destas mesmas oligarquias que lhe financia. Torna-se não mais uma crítica política racional, mas uma luta político-partidária fundamentada em bases pouco éticas, cuja corrente de transmissão, a grande mídia, caracteriza-se por um monopolio da informação sem paralelo no mundo. Esta situação e conjuntura deveria ser clara a todos os maçons, dado que dedicam-se a reflexão e estudo de forma sistemática, mas vejo entristecido que alguns maçons, ou desconhecem, ou entregam-se a interpretações levianas.


Fiquei negativamente impressionado como muitos, preocupados com a “ameaça vermelha” e a “cubanização” de nosso país, enveredam por difamar Cuba e rotular o povo cubano levianamente. Logo Cuba, o país com maior número de Lojas maçônicas e maçons per capita do mundo! Junto a isso vicejam incríveis interpretações sobre a existência de uma “ditadura” no Brasil, quando, na verdade, vivemos em um país com um governo legalmente eleito! Se não bastasse isso, muito pior, muitos calam-se perante os esforços feitos pelos opressores de sempre por um retrocesso político! Percebe-se que a luta pelos direitos humanos, feita por brava militância, sob forte pressão contrária e ameaças variadas do “establishment”, acaba sendo pouco valorizada e mesmo criticada, como fui testemunha em diversos momentos.


Particularmente sou crítico do estado atual das coisas, mas possuo suficiente capacidade para entender a diferença fundamental entre poder e governo, não atrevo-me a defender de forma leviana um retrocesso pelo simples prazer de ver as coisas mudarem. No entanto muitos o fazem…


O discurso geral que é apresentado pelos que defendem estas posições parece inicialmente palatável, destacando-se uma genérica luta contra a corrupção no país e os demandos do governo. Correto no geral, mas errando nos detalhes, tais posições não são claras quanto à sua oposição a outras experiências corruptas e degeneradas, que lutam, na cauda destes movimentos reacionários, para retomar o poder, num desejo de avanço na contra-mão da história, sem que o objetivo, que compartilho, de limpar a política nacional tenha alguma possibilidade de ser atingido por esta via. Na verdade, rotula-se os movimentos sociais e de rua como movimentos “comunistas”, “terroristas”, “milicianos”, ocultando-se o seu significado democrático e em defesa de causas populares. Os movimentos de rua, nestes dias, estão na luta por democracia e contra a corrupção de uma forma muito mais propositiva e coerente que as genéricas críticas feitas por alguns contra este ou aquele governo. Estrategicamente, posições deste tipo, de críticas genéricas sem luta, são inúteis, a não ser por, como afirmei desde o início, apoiar aberta ou, pior, silenciosamente, golpismos os mais variados contra nossa democracia.


Como humilde apoiador dos movimentos políticos militantes e de direitos humanos que lutam por avanços na nossa sociedade, não posso calar-me e deixar de defender esta militância política e enaltecer os esforços destes companheiros que lutam por uma sociedade melhor e mais justa.


Todos sabem que a Maçonaria outrora teve imensa influência e poder. No entanto, hoje ela encontra-se enfraquecida, num momento histórico em que ela nunca teve tão pouca influência no mundo. Esforços deveriam ser feitos para reerguer a Maçonaria e sua influência, mas, prosseguindo em defender posições reacionárias e retrocessos, só poderá aumentar seu afastamento da sociedade e diminuir sua importância e influência. Não posso deixar de fazer um apelo aos maçons para que retomem militância pela liberdade e justiça, mas jamais contra elas, buscando um futuro melhor e mais brilhante para nossa Augusta Ordem.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

O Ópio do Povo


O Ópio do Povo

Economistas mostram que o futebol faz o torcedor esquecer os altos impostos
 “A religião é o ópio do povo”, cunhou Karl Marx em uma de suas máximas mais repetidas. No Brasil, a maior nação católica do mundo, trocou-se a devoção no altar pelo futebol. Na terra de Pelé, Garrincha e Ronaldinho Gaúcho, dá-se como certo que o futebol é o ópio do povo. Será? Sim, respondem dois economistas, torcedores do Cruzeiro de Belo Horizonte. Cláudio Shikida, professor do curso de Ciências Econômicas do IBMEC de Minas Gerais, e seu primo, Pery Francisco Assis Shikida, da Unioeste de Toledo, no Paraná, comprovam na ponta do lápis que o andor da economia tem relação direta com a alienação do povo que vai aos estádios. Assim: um aumento de 1% nos dias de servidão que o brasileiro tem com relação ao governo, transformada em pagamento de tributos, gera um crescimento de 1,16% no número de pagantes em partidas do Campeonato Brasileiro. “Servidão” é uma variável econômica difundida – ela traduz o número de dias dedicados ao pagamento de impostos ao Estado, em todas as suas esferas, municipal, estadual e federal. Hoje, no Brasil, com uma carga tributária na casa dos 40%, estima-se que 120 dias de nossas vidas sejam destinadas a deixar quites as contas com o fisco. Resumo da ópera, segundo o irreverente estudo dos Shikida: o governo conquista o silêncio dos cidadãos, apesar dos elevados impostos, porque o grito nos estádios faz a população aliviar-se diante da mordida do Leão. Não há grandes conspirações para que isso aconteça, mas assim é. “O povo brasileiro não desrespeita a lei, paga o que pedem que pague”, diz Pery. “Já que paga em dia, tenta se consolar com seu time de futebol”. Cláudio brinca: “É uma maneira ruim de encher os estádios”.
 Pode-se tratar essa constatação, do futebol como válvula de escape, por óbvia. A novidade é que, pela primeira vez há cálculos sérios, de econometria, tentando explicá-la. Os dois especialistas fazem um pouco como Steven Levitt, autor de Freakonomics, best-seller mundial. De temas aparentemente banais, do cotidiano, tentam extrair conclusões econômicas. Há, naturalmente, amplas brechas para discussão, e a própria dupla admite inaugurá-la: há outras dezenas de variáveis para encher os estádios, especialmente a influência das transmissões de TV, e esse aspecto não foi medido. Sem contar a dificuldade em colher dados. De qualquer modo, o estudo – ancorado em equações complexas – é um divertido olhar para um dos problemas cruciais do País, a exagerada tributação. “O futebol é como o panis et circenses dos romanos”, diz Cláudio, referindo-se ao termo cunhado pelo poeta Decimus Junius no século II para brincar com a atávica mania do Estado Romano, tributador que só ele, de calar os súditos com circo.
Para cada 1% a mais de tributos imposto pelo Estado brasileiro
Há 1,16% de aumento da presença de público nas partidas do Brasileirão
Fonte: IstoÉ Dinheiro

quarta-feira, 19 de março de 2014

A Maçonaria sem Mistério

A Maçonaria é a personagem principal de O Símbolo Perdido, o novo Best-seller do escritor americano Dan Brown. Em entrevista
ao Fantástico, ele contou que em seu O Código Da Vinci ele perguntou o que aconteceria se Jesus não fosse divino, mas apenas um profeta. Já em O Símbolo Perdido a questão é se o ser humano teria poderes divinos, uma ideia que segundo ele vem da Maçonaria.
Toda a trama, cheia de peripécias, perseguições e surpresas, se passa em um domingo à noite em Washington, a capital americana, uma cidade cheia de símbolos maçônicos. Alguns são bem evidentes, como o obelisco, símbolo da divindade, com uma pirâmide, que representa a evolução dos seres humanos. Ainfluência dos maçons se refletiu na criação da Biblioteca do Congresso americano, hoje a maior do mundo.
Um dos templos da Maçonaria na cidade, onde os murais mostram o fundador da nação com o avental de pedreiro dos maçons lançando a pedra fundamental do capitólio, é o prédio do Congresso Americano.
Dan Brown lembra que o símbolo mais sagrado da nação, que está nas notas de dólar, é a pirâmide da Maçonaria, encimada por um olho que simboliza a sabedoria. Segundo o escritor, a pirâmide incompleta, sem o vértice, é um símbolo de que o ser humano, e o país, nunca estão prontos, sempre podem se aperfeiçoar.
O escritor destaca que, ao contrário do que muitos acreditam, os Estados Unidos não foram fundados como uma nação cristã. Os fundadores eram Maçons que seguiam o deísmo, uma religião universal que usa os símbolos de todas as crenças, e acredita que todos os homens nascem iguais, com o direito à liberdade de culto.
Sobre o altar do templo maçom, estão os livros das principais religiões: não só a Bíblia cristã, como a Torá dos judeus, o Corão dos muçulmanos, e as escrituras de outras tradições. O salão do templo, na capital americana, é o cenário da cena final do livro de Dan Brown, e certamente será recriado com muito mais colorido quando o filme for feito, aumentando ainda mais a repercussão sobre os mistérios da Maçonaria.
O Pietre-Stones - Freemasons Magazine, um dos mais respeitáveis sites sobre a Maçonaria em todo o mundo, publicou um fac-símile de uma carta de Dan Brown onde ele justifica sua ausência na reunião para a qual foi convidado, a Sessão Bi-anual do “Ancient Accepted Scottish Rite” (equivalente ao REAA no Brasil), da Jurisdição Sul de Washington.
“06 de outubro de 2009 Aos Convidados da Jurisdição Sul. É uma grande honra para mim ser convidado a saudá-los mediante esta carta.
Esperava poder estar com vocês esta noite pessoalmente, porém o lançamento do meu livro “O símbolo perdido” me manteve longe de Washington.
Nas últimas semanas, como poderiam imaginar, me perguntaram várias vezes o que me atraiu tanto dos maçons como para fazer deles o ponto central do meu novo livro.
Minha resposta é sempre a mesma: ‘Em um mundo onde os homens batalham a propósito de qual definição de Deus é a mais acertada, não acho palavras para expressar adequadamente o profundo respeito e admiração que sinto por uma organização na qual homens de crenças diferentes são capazes de ‘partilhar o pão juntos’ num laço de fraternidade, amizade e camaradagem.’
Por favor, aceitem meus humildes agradecimentos pelo nobre exemplo que constituem para a Humanidade. 
É o meusincero desejo de que a comunidade maçônica reconheça O Símbolo Perdido como o que na realidade é: um intento honrado de explorar reverentemente a história e a beleza da Filosofia Maçônica.
Sinceramente,Dan Brown”.

quarta-feira, 10 de abril de 2013


Leo Taxil 
O inicio dos boatos e mentiras sobre a Maçonaria

Gabriel Jogang Pagés, francês nascido em 1854, com o pseudônimo de Leo Taxil, tornou-se origem das acusações de luciferismo e cultos satânicos contra a Maçonaria, acentuando a discordância entre esta última e o Clero.

Leo Taxil teve uma juventude turbulenta, estudando em diversos colégios católicos dos Jesuítas, sendo expulso de alguns deles e sai da casa paterna antes dos 16 anos.

Dedicado inteiramente ao jornalismo, em 1871 já com o pseudônimo de Leo Taxil, para ludibriar seu severo pai, ingressa no “A Igualdade”; funda posteriormente o “La Marote”, a “Jovem República” e em 1874 dirige “O Furacão”.

Em todas essas ocasiões, seus artigos eram uma seqüência de folhetins anticlericais, dos mais violentos, sofrendo diversos processos por excesso de linguagem. Em 1876, foge para a Suiça, voltando posteriormente a Paris. Tinha 24 anos e começa uma carreira vertiginosa uma vez que os republicanos e anticlericais triunfavam. Em 1879 funda a Biblioteca Anticlerical e alimenta a França com uma enxurrada de panfletos sensacionalistas. Ganhou, com o passar dos anos, muito dinheiro e diversos processos movidos pelo Clero.

Em 1881, Taxil havia sido Iniciado na Loja Maçônica “Os Amigos da Honra Francesa”, da qual foi expulso após dez meses, ainda na fase de Aprendiz.

O interesse pela sua literatura sensacionalista decai, as vendas sofreram brusca queda, o que fez que, em 1885, após intensa atividade anticlerical, Leo Taxil declara-se “convertido”, repentinamente, sem transição alguma. Confessa-se e passa a viver com os clericais freqüentando bibliotecas religiosas e aplica um novo golpe: começa a escrever contra a Maçonaria.

Assim, na condição de “católico penitente”, dedica-se, a partir de 1885 à publicações antimaçônicas. Seus livros descreviam rituais maçônicos entremeados de fantasias mirabolantes, passando posteriormente, a inventar e descrever rituais fantásticos, cultos luciferinos, satânicos. Esses livros eram devorados pelos leitores ávidos de sensacionalismo, tornando-se um grande e lucrativo negócio.

O negócio floresceu e chegou ao ponto culminante com a invenção de “Miss Diana Vaughan” no seu livro “As Irmãs Maçons”, onde tal personagem era a sacerdotisa de um culto demoníaco feminino a que chamou de Palladismo. Tal personagem queria livrar-se das garras do satanismo e voltar à Santa Igreja Católica mas era impedida pelos Maçons.

As autoridades eclesiásticas apoiavam de público e através de cartas as “revelações” do autor, chegando algumas delas a oferecer auxílio à fictícia Diana Vaughan. Em visita ao Vaticano, Leo Taxil foi cordialmente recebido por Cardeais e teve uma entrevista pessoal com o próprio Leão XIII.

As obras de Taxil foram traduzidas em diversos idiomas e seus artigos publicados em revistas e jornais católicos. Outros autores, influenciado pelo sucesso de Taxil, e tomando-o como referência, começaram também a explorar o mesmo tema. Durante doze anos toda essa miscelânea de imbecilidades forjadas por Leo Taxil foi devorada por um público cativo.

Apesar da desconfiança de algumas autoridades de tudo não passar de um embuste, os livros de Taxil continuavam a ser vendidos. Sua influência crescia também em outras nações, a ponto de na Espanha e Bélgica serem formadas comissões especiais para investigação da Maçonaria.

Até que finalmente, na Itália, em setembro de 1896, realizou-se um Congresso Antimaçônico em Trento, incentivado pelo Papa Leão XIII. Lá, algumas manifestações de descrédito dos exageros de Taxil começavam a aparecer. O monsenhor alemão Gratzfeld, provou que Miss Diana Vaughan era um embuste, mas não foi levado a sério.

Comissões foram criadas e aí começaram a aparecer dúvidas sobre a veracidade dos escritos e das personagens. Começava, assim, o fim de uma mistificação.

Depois de muito relutar, na Sociedade Geográfica de Paris, Taxil denunciou sua própria fraude, gabando-se de ter conseguido iludir as autoridades eclesiásticas por doze anos. A reação às declarações de Taxil foi de tal ordem que ele teve de deixar o local sob proteção policial. Não mais se ouviu falar sobre Taxil que veio a falecer em 1907.

Eleutério Nicolau da Conceição em Maçonaria Raízes Históricas e Filosóficas - 1ª edição - São Paulo - Editora Madras - 1998, esclarece: “todavia, aplica-se a este caso a conhecida figura do travesseiro de penas sacudido ao vento: é impossível recolher todas as penas”. De tempos em tempos, aparecem livros antimaçônicos, inspirados nas idiotices de Leo Taxil, ou de outro autor inspirado por ele.

E, assim, os Maçons norte americanos, que periodicamente sofrem campanhas movidas por igrejas fundamentalistas, repisando sempre as mesmas teclas de Leo Taxil, referem-se à fraude como “The lie that will never die” – a mentira que nunca morrerá.

quarta-feira, 27 de março de 2013

O que é Maçonaria, qual a sua Filosofia e Realidade atual


Muitos perguntam o que é a Maçonaria, se ela é uma religião, quais são os seus segredos, seus símbolos e qual é o papel do Maçom na sociedade.     A Maçonaria é uma instituição de caráter filosófico, filantrópico e progressista. Proclama a predominância do espírito sobre a matéria, busca respeitar todos os credos e religiões e evita discussões de política partidária. Utiliza uma variedade grande de símbolos, às vezes entendidos apenas pelos iniciados, mas cujos esclarecimentos estão disponíveis para o público (vide exemplos nos artigos “O significado da estrela na Maçonaria” e “Luz Triunfadora”).

A Maçonaria trabalha para o aperfeiçoamento moral social e cultural da humanidade através da construção do edifício social. A Maçonaria é uma sociedade apenas discreta, sem grandes segredos, pois os seus endereços são conhecidos e a sua doutrina está toda em livros vendidos abertamente. Dessa forma, o grande segredo da Maçonaria é não ter segredo algum, restringindo os seus segredos a sinais, toques e palavras de reconhecimento.


Origem da Maçonaria

Vários autores consideram a Maçonaria como sucessora das tradições dos Cavalheiros Templários, extintos em 1312, e este entendimento é reforçado pelo fato da Maçonaria ter surgido mais fortemente na Escócia, que era justamente o principal local de exílio dos últimos Templários, sendo que no início ela era chamada de Maçonaria Operativa, composta por Corporações de Ofício medievais de construção. Em 1602, com a união da Escócia e Inglaterra pelo Rei Jaime, a Maçonaria especulativa (cada vez menos formada por operários ligados à construção de igrejas e castelos, e mais por filósofos dedicados à construção de uma sociedade melhor) se espalhou na Inglaterra e posteriormente na França, devido ao exílio dos nobres da casa de Stuart naquele País, em decorrência de lutas pelo fortalecimento do Parlamentarismo a partir de 1642. Com a queda definitiva da dinastia dos Stuart e ascendência da dinastia de Hanover, em 1714, houve a necessidade de readaptação da Maçonaria, concretizada com a formação da Grande Loja da Inglaterra, em 1717.

Desde então, houve grande crescimento da Maçonaria no mundo todo, tendo participado dos grandes acontecimentos mundiais desde o séc.18, como, por exemplo, da independência dos EUA, quando os membros mais importantes do recém formado governo americano eram Maçons, inclusive baseando a “Declaração Universal dos Direitos Humanos” na filosofia Maçônica. Foram muitos os momentos que a Maçonaria lutou pela soberania das nações.



Misticismo e Magia na Maçonaria

Na antiguidade as Escolas de Mistérios Egípcias, Gregas e outras, buscavam adaptar o homem ao meio social. Os chamados Pequenos Mistérios visavam ensinar a moral e adequar o homem à vida social, formando cidadãos virtuosos e os Grandes Mistérios ensinavam ciências mais ou menos positivas, visando formar filósofos úteis e sábios, que seriam a luz da civilização.

Com o desenvolvimento filosófico da Maçonaria especulativa, ela passou a ser a principal herdeira das Escolas de Mistérios, com a diferença de que na antiguidade os ensinamentos eram dirigidos apenas para uma casta privilegiada, enquanto a Maçonaria teve como princípio espalhar os conhecimentos. Os Pequenos e Grandes Mistérios estão hoje contidos nos Graus Maçônicos. Por exemplo, o Rito Escocês Antigo e Aceito (REAA) é composto de 33 Graus, cada um com ensinamentos filosóficos e morais que contribuem para o aperfeiçoamento da humanidade e são administrados por Lojas de Simbolismo (Graus 1 a 3), Perfeição (Graus 4 a 14), Capítulo (Graus 15 a 18), Kadosh (Graus 19 a 30), Consistório (Graus 31 e 32) e Colégio dos Inspetores Gerais (Grau 33).

Ao longo do tempo, foram desenvolvidas várias vertentes, ou escolas, na Maçonaria, cada uma dando ênfase a uma determinada face da Maçonaria: a escola autêntica procurou examinar as antigas tradições da Maçonaria à luz dos registros históricos disponíveis; a escola antropológica fez analogia com os antigos mistérios de várias nações para o estudo e pesquisa da história maçônica; a escola mística viu a Maçonaria como um plano para o despertar espiritual e o desenvolvimento interior do homem, na busca de uma união consciente com o Divino, através do despertar induzido pela interpretação e vivência dos antigos Mistérios; finalmente, a escola oculta ou ritualística, deu ênfase na eficácia sacramental do cerimonial maçônico (ritual) como forma de expansão de consciência para a união consciente com o Divino.

A filosofia é atualmente entendida como uma grande reflexão, enquanto que o misticismo, ligado aos mistérios, sempre foi considerado como uma forma necessária a toda religião, pois elas tinham vários dogmas. Entretanto, na antiguidade, a filosofia envolveu de misticismo todas as verdades e os magos fizeram um mistério de cada uma das verdades filosóficas. Dessa forma, a palavra mistério ficou associada à filosofia primitiva e não à religião, e a magia foi envolvida em um manto misterioso, despertando admiração e medo nas pessoas comuns. O folclore a respeito do potencial da magia sempre foi intenso e dependente de crenças individuais, pois nunca existiram fatos observáveis e mensuráveis.

Posteriormente, o conceito de magia foi aperfeiçoado pelos alquimistas, na busca de transmutação de metais inferiores em ouro, que eles consideravam como a substância mais perfeita e imperecível. A realização de experiências químicas à procura da pedra filosofal, que transformaria tudo em ouro, tinha o seu paralelo na busca da iluminação espiritual através da realização da “Grande Obra”, que era a transformação de pessoas comuns em pessoas espiritualizadas, com um estado superior de consciência e sentimentos nobres, através de fórmulas consideradas mágicas. Com o passar do tempo, o conceito esotérico de magia ficou sendo a capacidade de transformação de pessoas através de métodos que não eram de conhecimento geral, sendo que as antigas Escolas de Mistérios tinham esta capacidade de transformação dos indivíduos, sem que se compreendesse bem o seu mecanismo.

Modernamente, Bandler e Grinder desenvolveram os conceitos da PNL (Programação NeuroLinguística) a partir das habilidades linguísticas apresentadas por alguns psicoterapeutas, tornando compreensíveis e suscetíveis de aprendizagem os métodos de transformação das pessoas, detalhando no livro “A Estrutura da Magia” os conceitos e técnicas envolvidos na magia de mudança de comportamento, logicamente centrando na busca de solução dos problemas de ordem psicológica. De qualquer forma, guardadas as devidas proporções, os ensinamentos herméticos de Transmutação Mental (mudança de estado, forma ou condição), considerados a única chave-mestra para abrir todas as portas dos ensinamentos ocultos, estão sendo colocados à prova, considerando a máxima hermética de que poucos em cada geração estão preparados para a verdade, ou poderão reconhecê-la quando ela lhes for apresentada.

Além dos estudos místicos, a Maçonaria prioriza o trabalho e, diferentemente de outras Instituições filosóficas, prega a intervenção social, com a participação efetiva do Maçom na sociedade e no processo político, para promover o seu aperfeiçoamento. Esta utopia de construção do Edifício Social é o grande diferencial da Maçonaria em relação às outras ordens esotéricas, místicas ou filosóficas, porém a concretização deste objetivo utópico tem sido cada vez mais difícil, como veremos adiante.



Situação da Maçonaria no mundo atual

Após um período de grande crescimento, atualmente a Maçonaria encontra-se em um estágio que alguns pesquisadores têm classificado como “declinante”.

Nos EUA a rápida redução do número de Maçons, associado à elevação da idade média dos participantes da Maçonaria, tem causado muitas preocupações a respeito do futuro da Maçonaria naquele País, que tem a maior quantidade de Maçons no mundo, pois, aparentemente, a nova geração não está se entusiasmando em assumir os compromissos maçônicos. De quatro milhões de Maçons em 1959, hoje ela está reduzida a cerca de um milhão e meio.

Na Inglaterra, a Maçonaria tem sido ligada à monarquia e à Igreja Anglicana, resultando que desde o séc. 18, todos os Grãos Mestres naquele País tem sido nobres ligados à realeza britânica, com mandato vitalício e sem eleição, e existe uma certa discriminação, pois para participar da administração da Grande Loja da Inglaterra é necessário que seja Anglicano.

A Maçonaria ligada ao Grande Oriente da França deixou de exigir a crença em Deus e permitiu a filiação de mulheres, rompendo com a Maçonaria da Inglaterra. Foi também criada a Grande Loja Feminina da França, com a filiação de cerca de 7 mil mulheres. Segundo avaliação dos próprios franceses, predomina atualmente na Maçonaria da França o culto ao ritual, sendo dada pouca importância à participação social.



Situação da Maçonaria no Brasil atual

Da mesma forma no Brasil, a Maçonaria embora tenha participado de grandes eventos nacionais como a independência e a proclamação da República, no momento a Maçonaria encontra-se em um estágio que podemos chamar de pouca participação política, desde a instalação do “Estado Novo” de Getúlio Vargas, quando a Maçonaria passou a ter participação decrescente na definição dos destinos do País.

A situação atual do Brasil, de corrupção endêmica e institucional, limita severamente a possibilidade de atuação da Maçonaria no governo. Historicamente, a Maçonaria ganhou força através do apoio e da participação de Maçons em cargos importantes no governo, como na proclamação da República no Brasil, quando todo o gabinete inicial era formado por Maçons. Entretanto, em consequência da falta de perspectiva de solução do problema da corrupção endêmica, tem sido crescente a tendência da Maçonaria, como instituição, de distanciamento político do governo, não importando qual o partido que esteja no poder.

Os altos custos envolvidos nas campanhas políticas criam a necessidade de levantamento de recursos extraordinários para a manutenção dos cargos políticos. Aparentemente, essa grande exigência de recursos para que os políticos possam viabilizar os projetos de disputa de eleições, criam o ambiente generalizado de corrupção pública atualmente existente no Brasil. O ambiente mínimo de segurança para estas atividades ilícitas foi criado com a prerrogativa dos governantes em nomear juízes do Supremo Tribunal Federal, dos Tribunais de Contas, as cúpulas do Ministério Público, da Polícia Federal e das Polícias Militares e Civis, garantindo uma hegemonia e fortalecimento do grupo no poder. Desse modo, todas as ações anticorrupção perdem força e eventualmente estas instituições podem até ser utilizadas contra os adversários políticos. É lógico que esta segurança é relativa e sujeita à perda de controle, se o clamor público atingir níveis insustentáveis, como mostra o julgamento do STF a respeito do mensalão.

Entretanto, normalmente esta estrutura no poder funciona bem e até mesmo os adversários são poupados, pois a possível alternância política recomenda cautela e tolerância para com aqueles que poderão vir a ocupar o poder no futuro. Este não é o caso de eventuais agentes isolados que porventura tentem moralizar o processo político, atuando como verdadeiros Dom Quixotes, pois estes podem ser simplesmente afastados administrativamente, se exercerem cargos de confiança, ou passarem a responder processos e acusações infundados, sofrendo pesadamente com as instituições sob controle do grupo no poder. Grande parte da imprensa (jornais, televisões e blogs), altamente dependente do governo e regada generosamente com verbas governamentais, contribui para desmoralizar qualquer adversário do governo. Se tais represálias não forem suficientes, resta ainda enfrentar as armadilhas montadas ou o criminoso braço armado a soldo de quem possa pagar.

Neste contexto, a convivência com os níveis decisórios do governo implica necessariamente em conivência ou emudecimento. A Maçonaria não dispõe de condições para lutar contra este estado de coisa. Qualquer tentativa só irá gerar desgastes e processos contra a instituição e, por este motivo, é crescente a alienação dos Maçons no processo político. Esporadicamente são gerados manifestos políticos inócuos. Mas esta situação não ocorre apenas com a Maçonaria: as organizações ligadas a empresários também são forçadas a se alienarem, pois a pesada carga dos tributos, aliada ao cipoal da legislação tributária e trabalhista, criam grande fragilidade dos empresários, de todos os portes, em relação ao governo. Mesmo que venha atuando com muita correção no mercado, basta se falar em devassa fiscal nas suas empresas para que qualquer empresário passe de opositor a colaborador incondicional.

Consequentemente, no Brasil resta à Maçonaria a atuação como Clube de Serviço ou como instituição filosófica, limitando sua capacidade de transformação social. 




Conclusão

A Maçonaria é uma Ordem universal, sem objetivos lucrativos, que tem por finalidade a busca do aprimoramento moral de seus membros e da humanidade, através da investigação constante da verdade e da prática das virtudes. Ela defende a liberdade de pensamento e de expressão e combate a ignorância, a superstição e o fanatismo. Talvez por esse motivo, existe uma enormidade de visões da Maçonaria, tendo, na prática, cada Maçom a sua visão pessoal da Ordem, por isso às vezes é difícil responder de forma definitiva o que é a Maçonaria. Entretanto, alguns postulados e princípios gerais, chamados de landmark (antigas leis que regem a Maçonaria universal) são amplamente aceitos.

A Maçonaria não é uma religião e isto já ficou legalmente estabelecido em decisão do STF.  Embora não seja uma religião e pregue a convivência respeitosa com todas as manifestações religiosas, o relacionamento com as várias organizações religiosas tem sido muito problemático ao longo do tempo, como se pode verificar no artigo “A Maçonaria é Luciferiana?”.  Além do mais, devido à existência de uma infinidade de calúnias e difamações, é importante ressaltar que a natureza da Maçonaria não é incompatível com os verdadeiros valores cristãos, conforme discutido no texto "A verdade sobre Jesus Cristo e sua relação com a Maçonaria".


Em termos práticos, a utopia de construção do Edifício Social, através da intervenção social tem sido negligenciada em vários países, por diversas razões. Além disso, existe um sentimento generalizado de falha ou deficiência na divulgação dos elevados preceitos da Maçonaria e uma certa apatia na defesa de acusações injustas feitas à Ordem ou a seus membros. A Maçonaria ainda mantém um culto ao "Poder do Silencio".

O pensamento místico e filosófico que ainda predomina na Maçonaria, tem contribuído para a sua aura de mistério e induzido muitos Maçons à reflexão, mas o respeito mútuo, a tolerância e a integridade pessoal têm sido os principais alicerces para a utopia restauradora que se espera da Maçonaria para este 3° milênio.




Texto de Manoel Tavares Santos

As conclusões deste artigo são opiniões pessoais do autor e não reflete a posição institucional da Maçonaria.